Advento e a Espiritualidade da Vigilância

Tempo do Advento

Para a humanidade, o tempo é precioso e fator determinante para a sobrevivência. Ele marca as estações do ano e as etapas de vida das pessoas. A História é regida por ele, e nada escapa de seus efeitos, como lemos no livro do Eclesiastes: “Debaixo do céu há momento para tudo, e tempo certo para cada coisa: Tempo para nascer e tempo para morrer. Tempo para plantar e tempo para arrancar a planta” (Ec 3, 1-2). Assim, para melhor viver a experiência do ressuscitado e do seu Espírito, a Igreja se organiza em tempos litúrgicos para experienciar como se realizou a Salvação operada pelo Senhor Jesus.

Um desses tempos é o do Advento, que antecede a festa do Natal. O Advento é o tempo de preparação que nos traz à consciência o mistério da Encarnação: no seu antes, na espera do povo de Deus; e no seu depois, na vinda de Jesus, gerado no seio da Virgem Maria; e na espera do final dos tempos, quando ele retornará triunfante. E tudo isso refletido no agora da Igreja.

Essa intensa reflexão entre passado, presente e futuro nos abre o caminho para a espiritualidade da vigilância do Senhor que vem e nos adverte: “Fiquem vigiando! Porque vocês não sabem em que dia virá o Senhor de vocês” (Mt 24, 42). Essa vigilância está presente na História do povo hebreu, na promessa ao Pai Abraão, no chamado a Moisés, na páscoa e na fuga do povo pelo deserto até a terra prometida. Está nas vozes dos profetas e na vida dos homens e das mulheres de bom coração que guardaram a fé na espera do Messias, como bem nos coloca o Pe. Ronaldo Colavechio, SJ,  em seu livro Na Amizade de Jesus a partir da Amazônia: Uma espiritualidade Sinótica1: “O Reino de Deus antecede a Igreja, ou seja, no plano de Deus havia várias etapas. Primeiro veio a longa espera de Israel por seu Salvador. Ela começou no tempo dos patriarcas e terminou com a chegada de João Batista” (Colavechio, 2022, pág. 39).

E assim, na plenitude dos tempos, o Messias se encarnou, veio para junto de nós no seio de uma família, de uma mãe chamada Maria e de um pai chamado José: “Quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho. Ele nasceu de uma mulher, submetido à Lei para resgatar aqueles que estavam submetidos à Lei, a fim de que fôssemos adotados como filhos” (Gl 4, 4-5). E assim Deus cumpriu sua promessa: “E a Palavra se fez homem e habitou entre nós” (Jo 1, 14). Padre Ronaldo Colavechio, SJ, descreve assim esse tempo de Jesus: “Houve o momento de Jesus de Nazaré e a inauguração do Reino de Deus. Esse momento atingiu seu auge na morte e ressurreição do Senhor (Colavechio, 2022, pág. 39).

Nesse sentido, o Messias nascido da mulher caminhou no meio do seu povo trazendo misericórdia, perdão e a cura para as enfermidades do corpo e da alma. E esse mesmo Jesus veio nos chamar a segui-lo e a fazer o bem para todos. Depois que ele morreu na cruz e ressuscitou, um novo tempo se inaugura, o tempo da Igreja, dos discípulos de Cristo, guiados pelo Espírito Santo: “Naqueles dias, derramarei o meu Espírito também sobre meus servos e servas e eles profetizarão” (At 2, 18), o que continua até hoje” (Colavechio, 2022, pág. 39).

A Igreja, feita de homens e mulheres de fé e de tantas culturas e vivências diferentes, continua a sua peregrinação na terra, seguindo os passos do Mestre Jesus, celebrando os santos mistérios e indo até os mais pobres, até que ele retorne, conforme anunciara os anjos: “Este Jesus que foi tirado de vocês e levado para o céu, virá do mesmo modo com que vocês o viram partir para o céu” (At, 1, 11). O “vigiai e orai” (Mt 26, 41) então está em vivermos vigilantes na construção do Reino de Deus aqui na terra até que ele retorne na parusia, caminhando no seu seguimento e descobrindo-o em nosso próprio caminhar, em nossa própria realidade de vida.

O tempo do Advento, quando bem celebrado, nos permite abrir o coração para que, contemplando a vida de Cristo sob a ótica do mistério da Encarnação, tenhamos um guia de discernimento e mudança de vida. Isso nos auxilia a vivermos essa espiritualidade da vigilância, que compreende não apenas o tempo do Advento, mas a própria vida de quem deseja seguir as pegadas de Jesus Cristo. Afinal, ser vigilante não é somente estar em oração, mas fazer que a oração faça parte das nossas ações, ou seja, que nossas ações reflitam a mensagem do evangelho encontrada na intimidade com Deus, através da oração.

As leituras bíblicas do Advento destacam o mistério de Cristo que nasceu da Virgem Maria em Belém, que é o mesmo Jesus que um dia virá na sua segunda vinda. Nesse sentido, a Espiritualidade Inaciana2 é um caminho de discernimento na vida dos cristãos que desejam tornar-se mais próximos do Senhor da Vida. Assim encontramos no retiro do Advento3 um modo de rezar este período, através dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio: “Assim, a pessoa que contempla, tomando o verdadeiro fundamento da história, reflete e raciocina por si mesma” (EE, 02). E esse refletir proporciona o encontro com aquilo que é mais precioso, o fundamento pelo qual vivemos, “criados para louvar, reverenciar e servir a Deus nosso Senhor” (EE 23.2). E essa reflexão nos ajuda a compreender a vigilância da oração, da Eucaristia e da missão do dia a dia encarnada na realidade urgente da vida. E nos coloca em prontidão, como profetas do Senhor que não se deixa subjugar pelo relativismo da sociedade, nem ficar alheios às situações que geram destruição e morte.

O Senhor Jesus que veio no Natal e um dia voltará na parusia está no agora: no rosto dos mais pobres, dos mais pequeninos, dos órfãos, das mães desesperadas, dos encarcerados, dos enfermos, das crianças que são abortadas, dos indígenas, dos LGBTQIA + e dos jovens assassinados nas grandes cidades, nas periferias, na natureza que clama por proteção e vida e em todos quantos precisam de uma mensagem de vida. Além disso, não podemos esquecer que Jesus nasce em todos os lugares e todos os dias, muitas vezes abandonado nas ruas e becos de nossas cidades. O Advento é tempo propício para despertar nossa vigilância, que olha para o passado, que espera a vinda do Cristo no futuro próximo; e que, ao olhar para Jesus, não deixa de pensar que o Reino de Deus também se encontra no agora e necessita de nossas mãos para ser construído.

Uma boa vivência do Advento nos permite tomar consciência da missão de Jesus, que é a de levar a paz, a misericórdia, o perdão, a partilha do pão e a vida em abundância. Sem isso, nossa espera pelo Senhor vai ser como daquele servo que recebeu um talento, o guardou e não lucrou nada com ele. Que este Advento nos ajude a discernir e descobrir o verdadeiro sentido da vigilância. E que o Natal que preparamos seja igual ao refrão da canção católica que diz: “O Natal pode ser todo dia, se cada família se comprometer. A viver qual José e Maria, em seu dia a dia Jesus acolher”.

E nós agora, olhando para nossa vida de cada dia, como está nossa vigilância? “Somos fogos que acendem outros fogos”, como dizia o sacerdote jesuíta chileno Santo Alberto Hurtado? Ou vivemos uma vigilância fria, envoltos em tradicionalismos que nos prendem e nos tornam insensíveis à missão de uma Igreja em saída? Pensemos e mudemos o que precisamos mudar!

 

Referências bibliográficas:

  1. COLAVECHIO, Ronaldo L. Na amizade de Jesus a partir da Amazônia: Um Espiritualidade Sinótica. São Paulo: Edições Loyola, 2022.
  2. Espiritualidade Inaciana – A Espiritualidade Inaciana se enraíza na experiência de Santo Inácio e nos Exercícios Espirituais. Inácio de Loiola vivia convicto de que Deus habita e trabalha em tudo o que existe e acontece. A vida espiritual não se resume a momentos de oração ou à celebração dos Sacramentos, mas implica identificar-se com Jesus, procurando e encontrando Deus e a Sua vontade em todas as coisas. Fonte: https://pontosj.pt/jesuitas/espiritualidade-inaciana/
  3. Retiro do Advento. Livreto com orações a partir das leituras e reflexões do tempo do Advento, segundo a dinâmica dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola. Pode ser adquirido em: https://www.loyola.com.br/produto/retiro-de-advento-e-natal-2023-5544

 

Revisão: Ir. Hugo Bruno Mombach, FSC – Jornalista profissional (Reg.4065 DRT/RS)

Nota: As citações bíblicas são tomadas da Bíblia Pastoral, da Paulus.

Fonte web: https://www.paulus.com.br/biblia-pastoral/_PXS.HTM

INFORMAÇÕES DE CONTATO

Márcio Fernandes Conceição

Leigo, professor de língua e Literatura Portuguesa, Colaborador da Preferência Apostólica Amazônia com o Serviço Inaciano de Espiritualidade SIES/ Manaus e integrante da Rede Servir da Província dos Jesuítas do Brasil.

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