Dom Mário Antônio se despede da Igreja de Roraima com ato profético

Em carta dirigida ao Povo de Deus e homens e mulheres de boa vontade, o bispo pede que defendam os povos indígenas Yanomami e seus territórios.

Imagem capturada da transmissão ao vivo da Página do Facebook da Reitoria N.Sra. Aparecida

Ontem (23), o povo fiel de Deus da Igreja de Roraima e o clero local reunidos no pátio da Reitoria Nossa Senhora Aparecida, em celebração da Festa da Divina Misericórdia, se despediam de Dom Mário Antônio da Silva, que após quase seis anos de episcopado na Diocese de Roraima agora assumirá nova missão na Arquidiocese de Cuiabá, no Mato Grosso.

Durante a missa, algumas lideranças da Igreja e da sociedade civil não confessional prestaram homenagens à Dom Mário, reconhecendo sua importância no apoio irrestrito aos movimentos sociais, aos empobrecidos, aos migrantes e refugiados, às mulheres e aos povos indígenas, principalmente. Foi um momento de gratidão e muito afeto ao bom pastor que guiou suas ovelhas para viverem continuamente o sentido de “Igreja em saída”,  apelo exortado pelo Papa Francisco na Evangelli Gaudium.

Como último ato profético na Diocese, em sua homilia,  o bispo fez a leitura e assinou uma Carta que dirigiu ao Povo de Deus e aos homens e mulheres de boa vontade, na qual lhes convidava para o cuidado e defesa do povo Yanomami e da Casa Comum, além de pedir que não compactuem com políticas de morte. No documento Dom Mário denuncia a omissão do Governo Federal em relação à proteção aos povos indígenas e seus territórios e o responsabiliza por buscar legitimar com projeto de lei a abertura à mineração em terras indígenas.  Leia à íntegra da Carta:


 

Av. Bento Brasil, 613 – Cx. Postal, 163
69.301 – 050 – boa vista – rr
Fone: 95-3224-3741

Carta ao Povo de Deus e aos Homens e Mulheres de Boa Vontade.

 Boa Vista, 23 de abril, 2022

 

“Eu vim para que todos tenham vida”, disse Jesus (Jo 10, 10).

 

Irmãos e irmãs,

Com os primeiros contatos que os missionários da Igreja Católica em Roraima tiveram com os povos indígenas a defesa da vida, de suas culturas e de suas terras entrou no caminho da Evangelização. Desde os monges beneditinos e os missionários e missionárias da Consolata, a causa da vida dos povos indígenas foi assumida como anúncio da dignidade humana e, por vezes, com denúncia daquilo que negava o Evangelho e os direitos humanos. Seguindo Jesus Cristo continuamos a afirmar a vida em abundância para todos. “Passar de condições menos humanas para condições mais humanas” é Evangelizar, nos lembrava São Paulo VI. 

Na década 1950 os missionários da Consolata vão ao encontro do povo Yanomami que por sua abertura, os acolhem e passam a morar com eles, em 1965 fundam a Missão Catrimani, tão conhecida entre nós. 

Na década de 1970 os Yanomami começam a sofrer a invasão de seu território com a construção da perimetral norte. Nasce no coração dos missionários, organizações e tantos amigos e amigas o compromisso na luta pelo reconhecimento de suas terras. Era o caminho para a garantia da vida e da cultura Yanomami, como um bem para a humanidade.

Entre 1980-1990 o território Yanomami era invadido por aproximadamente 40 mil garimpeiros durante a primeira corrida do ouro em Roraima. Quem de nós não conheceu a aflição desse povo que chegou à beira de um genocídio? Tantas campanhas como: o “SOS Yanomami” e “Yanomami Urgente” e outras mais, que ultrapassaram as fronteiras tornando os Yanomami conhecidos pelo mundo afora e gerando uma rede de solidariedade e de luta para que a terra e a vida desse povo fossem protegidas.

Não é possível esquecer o massacre de Haximu, caracterizado como o primeiro genocídio pela Justiça brasileira, em que vários indígenas foram dizimados num confronto cruel e desigual. Nasce no Brasil e no exterior uma ampla campanha em favor da demarcação da Terra Indígena Yanomami, homologada em 1992, exatamente há 30 anos.

Nos últimos 3 anos, o dragão devorador da mineração tomou força novamente e avança com toda ferocidade e poder das organizações criminosas sobre a Terra Yanomami. Quem de nós não têm acompanhado as impactantes notícias das agressões armadas às aldeias, as várias mortes causadas pelo garimpo, tais como a draga que sugou as duas crianças no rio Parima, em outubro do ano passado, e a violação de meninas e mulheres que são aliciadas em troca de comida pelos donos do garimpo? 

A cada dia chegam notícias de toda forma de abusos contra os Yanomami. As imagens espalhadas no mundo das redes sociais e nas TVs são uma vergonha para nosso país e fazem o nosso coração sentir o sofrimento e a morte que os Yanomami e a natureza estão vivendo. Outra forma de violência não menos cruel, consiste na distribuição de armas e bebidas que provocam conflitos entre eles. Colocar irmãos contra irmãos é atualizar o pecado de Caim e Abel. 

Denunciamos a omissão e a responsabilidade do Governo Federal, que ao invés de cumprir seu papel constitucional na defesa dos povos indígenas e de suas terras, patrimônio da União, incentiva as invasões e coloca na pauta do Congresso Nacional o projeto de lei, que legaliza a mineração em terras indígenas.  Tal proposta não passa de uma ilusão enganadora de supostos benefícios. Sofrem os povos indígenas, a natureza, os ribeirinhos e as cidades com os rios e os peixes envenenados pelo mercúrio, e sofrem também as pessoas iludidas que buscam no garimpo um modo de escapar das duras condições de vida no Brasil, mas encontram servidão, violência, drogas e morte. Deus nos livre dessa maldição!

Convidamos os cristãos e todos os irmãos e as irmãs de boa vontade, à luz da Páscoa de Nosso Senhor Jesus Cristo, a vitória da vida sobre a morte: 

– a se unirem na defesa e na garantia da vida e do território do povo Yanomami, estabelecidos na Constituição Federal;

– a promover a Justiça e não compactuar com o projeto de morte que autoriza a mineração nas terras indígenas;

– a assumir o compromisso de defesa e do cuidado para com a Casa Comum, pois já sentimos os efeitos devastadores do garimpo, com o envenenamento de nossos rios Mucajaí, Uraricoera… que já nos atingem.

Dom Aldo Mongiano, dizia na década de 1980 – 1990:  “o bem de alguns não pode causar a morte de outros” e escrevia em nome de todos os cristãos: “é um privilégio ter os Yanomami na sociedade de Roraima.” Assim, irmãos e irmãs, que Deus nos socorra nesta hora de construção da paz, do bem viver e da esperança da terra sem males que vem a cada manhã!

 

 Dom Mário Antonio da Silva 

Bispo de Roraima

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Ana Lúcia Farias

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