Kiwxi: “O que levamos dentro, mais cedo ou mais tarde, deve ser dito!”

Vicente Cañas foi missionário espanhol que viveu e morreu pela luta indígena e foi chamado de Kiwxi pelos Enawene-Nawe.

 

“O que levamos dentro, mais cedo ou mais tarde, deve ser dito!” Foi o que Vicente Cañas, sendo estudante, expressou ao seu provincial numa carta em que pedia para ser enviado às missões.

No mês de abril, o dia 19 é recordado como dia dos povos indígenas. Hoje vivemos em uma situação pan-amazônica regional e global de pandemia, que mata a vida – inclusive desses povos – e ameaça o equilíbrio da casa comum do planeta. Neste mesmo horizonte, com outras várias situações de ameaças que esses povos sofrem, o Papa Francisco expressou o seguinte, em seu encontro com os povos indígenas em Puerto Maldonado, em 19 de janeiro de 2018:

 

“Os povos originários da Amazônia provavelmente nunca estiveram tão ameaçados em seus territórios como agora. A Amazônia é disputada por terra em várias frentes: Por um lado, o neoextrativismo e a forte pressão de grandes interesses econômicos que visam sua ganância por petróleo, gás, madeira, ouro, monoculturas agroindustriais. Por outro, a perversão de certas políticas que ´promovem´ a conservação da natureza sem levar em conta o ser humano e, concretamente, os irmãos amazônicos.”

 

Hoje como ontem, os povos indígenas e seus aliados continuam lutando para defender seus territórios e manter seus direitos territoriais e culturais conquistados em defesa da vida da humanidade e do planeta.

Em 5 ou 6 de abril de 1987, o missionário e irmão jesuíta Vicente Cañas, Kiwxi, foi assassinado. Três pistoleiros escolhidos pelo delegado regional de polícia e pagos pelos latifundiários o executaram de madrugada, em seu barraco de apoio localizado na entrada do território Enawene-Nawe, às margens do rio Juruena, quando se preparava para subir a vila.

O crime foi brutal: eles quebraram seu crânio com um cassetete, perfuraram seu abdômen com uma faca e possivelmente cortaram seus órgãos genitais. Seu corpo foi encontrado fora do barracão onde morava, em 16 de maio, 40 dias depois do seu assassinato. Estava mumificado! Ali mesmo ele foi plantado como fazem ritualmente seus irmãos Enawene-Nawe: envolto em sua rede e com uma pedra do rio Juruena marcando o local sagrado da entrega da vida.

Trinta anos depois, em 2017, a justiça foi feita. O delegado de polícia, o único dos responsáveis ainda vivo ​​que poderia ser indiciado, foi condenado. Três sobrinhas e um sobrinho de Vicente estiveram no julgamento, no túmulo e visitaram a aldeia Enawene-Nawe. Na ocasião, os indígenas não conseguiram esconder a emoção que sentiam ao saberem que àquelas pessoas eram parentes de seu irmão Kiwxi: abraçaram-lhes e acariciaram-lhes, convidaram-lhes a comer nas suas casas comunitárias, cantaram para eles e os convidaram a dançar com eles… Eles deviam a vida a Kiwxi,  que por eles havia arriscado sua vida.

Isso tudo, por que em 1974, Vicente Cañas e Thomas Lisboa entraram em contato com os Enawene-Nawe para ajudá-los, pois estavam sendo exterminados por fazendeiros da região que invadiam suas terras. Na época, eram apenas 97 pessoas. Hoje são mais de mil e continuam a crescer e a multiplicar-se no seu território demarcado. O empenho e dedicação de Kiwxi, seu Mistério Pascal, foi a vida dos Enawene-Nawe. “Eu vim para que tenham vida abundante” (Jo 10,10).

Kiwxi foi morto dois meses depois de fazer meus votos para o biênio, no noviciado no Paraguai. A imagem do seu corpo imolado e mumificado, a sua vida radicalmente doada, foi a contemplação diária da minha oração e discernimento durante meses. E, foi assim que apresentei ao provincial com muita força e convicção: “A morte de Vicente é uma clara moção de Deus para que eu me ofereça e abrace a missão indígena de coração.” Nesse sentido, Deus e a Companhia têm sido fiéis… E só posso agradecer esta vocação indigenista que Vicente, com seu testemunho radical de vida doada, me ajudou a discernir. De fato, é uma verdade, como Vicente expressou ao seu provincial: “O que levamos dentro, mais cedo ou mais tarde, deve ser dito!”

Creio que é desconfortável ter colegas como o Vicente, porque nos obrigam a sair da nossa zona de conforto. Mas, também é um enorme privilégio porque Kiwxi denuncia todos os projetos de violência e morte impostos à humanidade e ao planeta; mas, sobretudo, é um anúncio do Projeto de Vida Abundante que Deus quer para todos os povos e seres da Terra.

 

Pistas para refletir:   

  • A vida e morte de Vicente em que ajuda a refletir em minha própria vida (pessoal, religiosa, pastoral, profissionalmente…)?
  • Como tenho agido em relação aos povos indígenas? Tenho colaborado com a vida abundante desses povos?
  • O que tem me mostrado a Criação de Deus e como tenho respondido como criatura amada?

 


*Fernando López, missionário jesuíta na Amazônia que integra a Equipe Itinerante e Equipe Indigenista conveniada ao Conselho Indigenista Missionário – CIMI.

 

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