Mercúrio e Água

Entrevista – Simone Pereira, Profa. Dra. em química da UFPA

A Entrevista ESPECIAL com a Profa. Dra. Simone Pereira da Universidade Federal do Pará – UFPA é uma série de três partes. Todos os dias ela responde duas perguntas sobre o  tema Mercúrio e Água.

 

PERGUNTAS

– A concentração de metais pesados no meio ambiente tem sido fonte de grande preocupação de vários grupos ambientalistas e bioquímicos ao longo do tempo no horizonte do cuidado com a natureza e as pessoas. No espaço geográfico da Amazônia Brasileira, quais realidades tem contribuído para a toxidade do mercúrio no ecossistema aquático da região e por quê?

Primeiramente eu tenho que explicar que há duas vertentes quanto a questão da toxicidade do mercúrio aqui na região amazônica. A primeira, logicamente, e mais conhecida, é o Mercúrio Oriundo dos Garimpos. A segunda é menos conhecida, mas é em relação ao mercúrio natural. O mercúrio natural que existe aqui na Amazônia pode ser introduzido no meio ambiente por algumas atividades antrópicas, como por exemplo: desmatamento e queimada. Ou por atividades naturais como é a questão da erosão das margens dos rios. Até mesmo quando você mantém as margens acontece o desmoronamento de margens de rios e desse modo o mercúrio que, normalmente, está ali associado ao ferro acaba indo para os rios.

O mercúrio, nos garimpos é utilizado para separar o ouro. O amálgama formado em seguida é queimado com maçarico e assim ocorre a separação dos dois elementos. Para evitar que o mercúrio chegue ao ambiente são usados equipamentos como as retortas que fazem a sua recuperação. O que acontece normalmente nas casas de queima que utilizam a queima do amálgama com maçaricos em ambiente aberto e isso causa logicamente o aporte desse mercúrio na atmosfera e consequente entra no ecossistema. Principalmente, o ecossistema aquático, pois esse mercúrio se transforma em mercúrio reativo e acaba voltando para o ambiente, para o solo, para o rio na forma de mercúrio.

Na Amazônia, os garimpos são muitos e crescem de forma desordenada, com pouca fiscalização e controle. O que gera a possibilidade de contaminações em lugares que normalmente quando se descobre a contaminação por mercúrio já está avançada. Mas, antes disso tudo, para garimpar o ouro é necessário fazer o desmatamento daquela área, depois podem utilizar maquinário pesado como, por exemplo, retroescavadeiras, que removem o solo e causam problemas como o assoreamento dos rios… Tudo isso aumenta a turbidez da água dos rios, pois eles precisam de grandes quantidades de água para poder fazer a garimpagem. Este mercúrio chega até o fundo do rio e ali também causa problemas na biota porque o peixe acaba comendo o plâncton que também acumula o mercúrio e depois o ser humano come o peixe contaminado. As queimadas são também outro exemplo de aporte de mercúrio no ambiente, quando você queima a floresta, você acaba queimando também o solo e o mercúrio que já estava ali naturalmente vai para a atmosfera e pode migrar para outras áreas distantes daquela onde está acontecendo a queimada. Através da chuva, ele retorna aos ecossistemas hídricos e terrestres podendo provocar a contaminação.

– Quais são os impactos do mercúrio na Amazônia a curto, médio e longo prazo para as populações tradicionais?

As populações tradicionais, que normalmente consomem a água, os pescados dos rios e os produtos da floresta sofrem impactos diretos na sua saúde. Então as pessoas que consomem o peixe, o tracajá, que consomem a água contaminada pelo mercúrio, acabam desenvolvendo problemas de saúde, associados principalmente a danos ao cérebro, rins e pulmões. A contaminação por mercúrio pode resultar em várias doenças como a doença de Minamata, que afeta o sistema nervoso central, causa falta de controle muscular, problemas de deformidades em bebês, etc. Estes problemas que devem ser tratados, mas quase nunca são. A médio e a longo prazo, mesmo quando se tem pequenas quantidades do mercúrio no peixe, no tracajá, na água por causa do fenômeno de bioacumulação podemos ter a contaminação da população.  Às vezes você não dá importância a esta situação, porque os resultados não estão acima da média da legislação. O problema é que o mercúrio, mesmo em pequenas concentrações, ao longo do tempo, pode causar problemas de saúde devido o acúmulo do elemento no corpo. Mesmo consumindo água com pequenas quantidades ou consumindo peixe, tracajá,  etc. com pequenas quantidades do metal, as populações podem vir a desenvolver as doenças.

A ANVISA, em relação ao teor máximo de mercúrio permitido no tecido dos peixes, fixou um teor máximo permitido de 0,5 mg/kg, para pescado não-predador, e 1,0 mg/kg para pescado predador. Infelizmente não tem essa divisão ou informação mais clara para outros produtos, como por exemplo, o tracajá. Vale a pena ressaltar que em regiões contaminadas por mercúrio, como aconteceu na cidade de Minamata no Japão, é bem comum você vê pessoas apresentando os sintomas da doença inclusive crianças que já nascem com problemas congênitos causados pelo mercúrio que a mãe, possivelmente já possuia em seu organismo. Outros problemas neurológicos também são percebidos, as pessoas apresentam um desequilíbrio muscular, parecido com a doença de Parkinson. Elas não têm controle sobre o seu corpo, principalmente os mais idosos.

INFORMAÇÕES DE CONTATO

Simone Pereira

Simone Pereira possui graduação em Engenharia Química (1982), Licenciatura em Química (1987), especialização em Educação e Problemas Regionais (1989) pela UFPA e doutorado em Química pela UFBA (1997). Tem experiência na área da Química, com ênfase em Química Analítica e Química Ambiental, atuando principalmente nos seguintes temas: Poluição por elementos tóxicos nos recursos hídricos da Amazônia, desenvolvimento de adsorventes, problemas ambientais causados por indústrias e mineração dentre outros temas. É professor Titular do Instituto de Ciências Exatas e Naturais, líder do grupo de pesquisa em Química Analítica e Ambiental e coordenadora do Laboratório de Química Analítica e Ambiental (LAQUANAM) da UFPA. É orientadora de mestrado e doutorado do Programa de Pósgraduação em Química e do mestrado profissional em rede nacional para o ensino de Ciências Ambientais (PROFCIAMB). Foi consultora do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) e representante docente do Instituto de Ciências Exatas e Naturais no CONSEPE e CONSUN da UFPA. Atualmente é a vice coordenadora do Programa de Pós-graduação em Química.

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