Mercúrio e Água – Parte 2

Entrevista – Simone Pereira, Profa. Dra. em química da UFPA

A Entrevista ESPECIAL com a Profa. Dra. Simone Pereira da Universidade Federal do Pará – UFPA é uma série de três partes. Todos os dias ela responde duas perguntas sobre o  tema Mercúrio e Água. Esta é a parte II. Quer ler a anterior? Clique aqui.

 

ENTREVISTA

 

– Sabe-se que a atividade garimpeira ilegal não é algo novo na Amazônia, ela acontece há muitas décadas, só que agora está mais extensiva. Diante disso, podemos presumir que os danos à água, ao solo e a vegetação amazônica atualmente podem provocar impactos planetários acelerados e talvez irreversíveis? Que considerações você traz sobre isso?

Os impactos da exploração garimpeira e a contaminação por mercúrio nos ecossistemas, são mais a níveis regionais. Sabemos que um rio como o Rio Amazonas lança sedimentos até chegar, por exemplo, no Caribe, se este sedimento carrega elementos tóxicos, como o mercúrio, espera-se que esta contaminação pode chegar a outros países. As emissões atmosféricas oriundas das queimadas que ocorrem na Amazônia, também podem levar os elementos tóxicos para outros países, porquê estas emissões não ficam restritas apenas naquele local onde está ocorrendo a queimada. Um outro aspecto que se deve ter cuidado é em relação aos alimentos oriundos de lugares impactados pelo mercúrio na Amazônia. Se estes produtos são exportados, para países como o Japão, Estados Unidos, etc. há de se manter um rigoroso controle de qualidade em relação a verificação da concentração do mercúrio e outros elementos para que esta contaminação não chegue a outros lugares. Eu não tenho conhecimento de que seja obrigatório a análise ou o acompanhamento da análise sobre a concentração de metais, inclusive do mercúrio nos peixes exportados, oriundos de áreas impactadas da Amazônia. Normalmente a preocupação sobre a contaminação por elementos tóxicos, se dá de maneira mais restrita em locais onde a pessoa tem contato com as atividades garimpeiras de maneira muito acentuada, como foi por exemplo, na década de 80, no município de Itaituba – ou na Serra Pelada no Pará.
Recentemente foi publicado um artigo de pesquisadores da UFOPA que encontrou concentrações de mercúrio acima do limite permitido em sangue em torno de 400 moradores de Santarém e arredores. Isso é muito preocupante, pois foram mais de 70 % da população avaliada com níveis elevados de mercúrio. Santarém é a maior cidade no oeste do Pará onde o consumo de pescado é muito alto. Podemos supor, que o que está acontecendo em relação aos níveis elevados de mercúrio no povo santareno pode estar diretamente ligado ao consumo de água ou alimentos contaminados devido às atividades garimpeiras da região do Tapajós. É necessário que os órgãos ambientais de controle façam uma fiscalização em relação a qualidade do pescado consumido na área em questão.

– Em relação aos rios, lagos, aquíferos uma vez contaminados que métodos podem ser empregados no controle ou recuperação destes ambientes? Existe algum em curso na Amazônia do seu conhecimento?

Eu não conheço nenhuma iniciativa para recuperar rios contaminados por mercúrio, principalmente aqui na Amazônia. Para o sul do país, sudeste, ainda se tem alguma notícia em relação a bioremediação, a exemplo do que aconteceu na Repar, uma refinaria lá do Paraná. Neste caso foi um problema de vazamento de produtos de petróleo no rio e solo de área próximo a refinaria. Após o ocorrido foi desenvolvido uma técnica junto com uma empresa canadense para poder remediar o solo contaminado por petróleo, a técnica era a bioremediação. No caso de um rio onde o elemento está dissolvido na água e também precipitado nos sedimentos é muito complicado. Na região amazônica há um grande volume de águas com rios de grandes extensão e este processo de remediação é muito caro e de difícil execução. O mais correto é o processamento de retirada do mercúrio em retortas que evitaria a contaminação. Quando o elemento se encontra no sedimento, se poderia fazer uma dragagem do rio pra retirar aquela camada onde tem o depósito do elemento tóxico e fazer a remediação ex situ, ou seja fora do local onde está ocorrendo a contaminação. Vale lembrar que não se pode usar o material que esteja contaminado em qualquer situação possível, nem como aterro, nem como qualquer outra finalidade. Se o que está sendo retirado do rio possui em sua constituição elementos tóxicos como o mercúrio, este material deverá ser considerado um rejeito perigoso.

INFORMAÇÕES DE CONTATO

Simone Pereira

Simone Pereira possui graduação em Engenharia Química (1982), Licenciatura em Química (1987), especialização em Educação e Problemas Regionais (1989) pela UFPA e doutorado em Química pela UFBA (1997). Tem experiência na área da Química, com ênfase em Química Analítica e Química Ambiental, atuando principalmente nos seguintes temas: Poluição por elementos tóxicos nos recursos hídricos da Amazônia, desenvolvimento de adsorventes, problemas ambientais causados por indústrias e mineração dentre outros temas. É professor Titular do Instituto de Ciências Exatas e Naturais, líder do grupo de pesquisa em Química Analítica e Ambiental e coordenadora do Laboratório de Química Analítica e Ambiental (LAQUANAM) da UFPA. É orientadora de mestrado e doutorado do Programa de Pósgraduação em Química e do mestrado profissional em rede nacional para o ensino de Ciências Ambientais (PROFCIAMB). Foi consultora do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) e representante docente do Instituto de Ciências Exatas e Naturais no CONSEPE e CONSUN da UFPA. Atualmente é a vice coordenadora do Programa de Pós-graduação em Química.

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