Mês da Bíblia: a Carta aos Efésios

Mes-da-Biblia-2023 Carta aos Efésios

⇒ Formação e Reflexão

Mes-da-Biblia-2023 Carta aos Efésios

 
Ao revelar o mistério do Pai e de seu amor, Jesus Cristo, o último Adão,
manifesta plenamente aos seres humanos o que é o ser humano
e a sublimidade da vocação humana (Gaudium et Spes,22).

Considerando a importância do mês de setembro para uma maior conscientização do estudo e da meditação da Bíblia em nossas paróquias, comunidades e obras, neste ano foi indicado pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) o texto da carta aos Efésios. A escolha do livro a ser estudado a cada ano considera pontos importantes do contexto em que estamos vivendo (social, religioso, etc.) com o objetivo de oferecer pistas de reflexão. Desta vez não foi diferente, a intenção é ajudar a ampliar o nosso horizonte de interpretação e compreensão do contexto que estamos inseridos, com os seus desafios.

À vista disso, a indicação do estudo e da reflexão da carta aos Efésios vem em nosso auxílio em dois aspectos. O primeiro, nos ajuda a refletir sobre a sinodalidade, tendo em vista o caminho que estamos percorrendo rumo ao próximo Sínodo. O segundo aspecto, nos abre para a consideração da importância da iniciação à vida cristã, sobretudo, do batismo, com a escolha do lema: Vestir-se da nova humanidade! (Ef 4,24).

Mas, o que essa carta tem a ver com sinodalidade e batismo? Bem, por um Cristo, o Pai, nos escolheu a todos como filhos adotivos. Por outro lado, essa escolha tem uma finalidade bem precisa: sermos santos. E ainda, nessa escolha, o Pai não faz distinção de pessoas: em Cristo Ele nos escolheu a todos (Ef 1,3-14). Uma vez reconciliados pelo Pai em Cristo, todos (judeus e não judeus) somos convidados a caminhar juntos, colaborando mutuamente uns com os outros, assim como acontece com os membros de um corpo. Na teologia da carta, o corpo é a Igreja que tem a Cristo por Cabeça.

Vale ressaltar que essa carta, pressupõem-se que foi escrita entre a segunda metade e o final do século I, depois de Cristo. Nesse sentido, no seu percurso missionário, Paulo já havia percorrido muitos lugares e várias comunidades estavam caminhando no seguimento de Jesus inspiradas nos ensinamentos que o apóstolo deixou. Porém, essa carta não reflete a preocupação com uma parusia* iminente como vemos em outros escritos de Paulo. Isso é sinal de que novas questões ocupavam o redator quando escreveu essa carta.

É compreendido, que na época, numericamente, a comunidade cristã estava crescendo. A ela vinham pessoas oriundas da religião judaica e não judaica (gentios). Surgia então as perguntas (dentre outras): como estão inseridos no corpo eclesial pessoas de origens tão diferentes? Quem tem mais dignidade na Igreja? Como entender que, aqueles que não pertenciam à religião judaica também eram herdeiros das promessas que Deus fizera outrora ao povo de Israel? Como devemos proceder na vida diária: há uma conduta distinta ou devemos todos agir do mesmo modo?

A partir de questões como essas, o autor, em comunhão com a teologia de Paulo, desenvolve a sua reflexão. Ele expressa que pela condição de termos sidos reconciliados pelo Pai em Cristo isso nos coloca em uma situação diferente conosco, com os outros e com o mundo. Aquele ou aquela que entrou no caminho da salvação pelo batismo faz parte de um corpo (a Igreja) que tem o próprio Cristo como cabeça. A partir do batismo, começa uma nova etapa na vida que o autor compara com uma nova roupa (Ef 4,24). E por isso, essa nova condição advinda da pertença à Igreja, Corpo de Cristo, atinge todos os âmbitos da vida da pessoa: familiar, social, eclesial, etc.

Além disso, a carta indica pontos importantes sobre qual deve ser a resposta do cristão para viver essa reconciliação alcançada por Deus. São códigos de condutas oferecidos aos membros, seja no âmbito individual, seja no âmbito da família. A vocação vivida no seguimento de Jesus, então, consiste entre outros pontos em sermos manifestação da glória de Deus no mundo, uma vez que no mundo já não somos mais estrangeiros.

Olhando o magistério do Papa Francisco, alguns pontos de contato com a teologia da carta aos Efésios poderiam nos ajudar a alargar o nosso horizonte atual de reflexão. Vejamos!

Em Cristo todos somos membros de uma mesma família (Ef (2,19). O Papa Francisco inicia a Encíclica Fratelli tutti (2020), citando as palavras de São Francisco de Assis, falando a seus irmãos e irmãs para que vivam uma forma de vida com sabor de Evangelho. E assim, deseja o Papa que vivamos um amor que ultrapassa as barreiras da geografia e do espaço (FT 1). A teologia da carta aos Efésios, nos pede esse compromisso: superar barreiras culturais, sociais e outras para vivermos a nossa condição de filhos e filhas de Deus. Isso tem a ver com a alegria da qual tantas vezes nos tem falado o Papa Francisco: alegria do evangelho, do amor. Viver a alegria e sermos discípulos e missionários faz parte da vocação do Cristão.

E, na Carta Encíclica Laudato Si (2015), temos a alegria que acompanha o louvor feito por São Francisco de Assis olhando toda a criação, essa maravilhosa obra nos dada pelas mãos do criador. Aqui, o Papa nos chama a atenção para o cuidado com o ser o humano e a casa comum. Nesse sentido, a carta aos Efésios nos convida a celebrar essa nova condição de que, uma vez que somos membros da família de Deus (a Igreja, Corpo de Cristo), podemos também cuidar uns dos outros pelo nosso modo de viver a nossa vocação. Hoje, ampliamos esse olhar contemplativo também sobre o planeta no qual vivemos. E com isso, o Papa nos pede para considerar a tarefa urgente de cuidar também dessa grande casa comum que o Pai nos deu e na qual habitamos e vivemos. Uma tarefa exige a outra.

Olhando esses apelos (dentre outros) que nos faz o Papa Francisco e iluminados com a teologia da carta aos Efésios, podemos nos perguntar: como estamos vivendo a nossa condição de cristãos e cristãs, batizados e batizadas, ou seja, pessoas revestidas de uma nova humanidade em Cristo? A pensar: vivendo essa condição no cuidado com a vida nos seus vários aspectos e presenças como pelo respeito com a dignidade humana (ferida em tantas situações), a criação de pontes entre nós e as diversas culturas ao invés de barreiras que nos impedem de dialogar e valorizar o que o ser humano tem de mais belo no seu modo de viver, etc.

Com tudo isso, a carta nos convida a considerar na diversidade de dons e carismas (Ef 4,11-13) a riqueza e a beleza que compõe o Corpo que tem a Cristo por cabeça. Para tal, sabemos que é preciso aprender também a contemplar a nossa casa comum com todo seu esplendor e assim, podemos agradecer profundamente ao Pai que nos concedeu tantos dons por meio dessa diversidade de expressões e manifestações de vida que compõe o nosso planeta e o lugar em que habitamos (bairro, cidade, estado, país, universo).

Enfim, que o estudo e a meditação da carta aos Efésios, nos leve, seja individualmente ou seja comunitariamente, a descobrir e a viver a alegria da nossa vocação eclesial como membros de uma mesma família que vivem os seus batismos inseridos em uma casa comum, no serviço e na partilha dos dons recebidos de Deus. E, ao mesmo tempo, nos sensibilize para a importância de não sermos muros fechados, mas construtores de pontes e assim, sermos no mundo, sinais do amor do Pai com todos, independentemente da sua cultura, religião, condição social. Pois, somos filhos e filhas escolhidos e escolhidas pelo Pai Criador em Cristo para sermos santos e irrepreensíveis diante dele no amor (Ef 1,4).

*a segunda vinda de Jesus Cristo à Terra.

INFORMAÇÕES DE CONTATO

Pe. Charles da Silva Dias, SJ

Vigário paroquial na Paróquia Nossa Senhora do Rosário e São Benedito em Cuiabá – MT.

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