A equipe coordenadora do Serviço Jesuíta Pan-Amazônico (SJPAM), liderada pelo padre Rafael Garrido e por María Eugenia Carrizo, realizou uma visita às obras e serviços da Companhia de Jesus em parte do território amazônico do Brasil e da Guiana, com o objetivo de conhecer a vida e a missão e identificar desafios para a articulação no SJPAM. O percurso abrangeu desde Manaus até os epicentros migratórios de Roraima e Lethem, buscando cuidar da dignidade das populações mais vulneráveis.
Manaus: foco nos direitos e no acompanhamento comunitário
A primeira parada da visita ocorreu em Manaus, onde o trabalho jesuíta combina a ação pastoral com obras e projetos de caráter social. A partir das oficinas do Serviço Amazônico de Reflexão e Educação Socioambiental (Sares), dirigido pelo padre Silvio Marques, S.J., são impulsionados projetos importantes, como a sensibilização para os direitos dos povos indígenas, especialmente das mulheres, organizando espaços de formação que integram lideranças indígenas e urbanas.
Além disso, a equipe percorreu as seis zonas da área missionária Santa Margarida de Cortona e a Casa de Espiritualidade Irmão Vicente Cañas, acompanhada por seu pároco, Paulino Martins, S.J., e por uma equipe de companheiros jesuítas. A visita permitiu conhecer os territórios onde se desenvolve a missão de acompanhamento no contexto local.
Boa Vista: resposta integral às necessidades dos migrantes
Ao chegar a Boa Vista, no estado de Roraima, o foco se desloca para o atendimento à severa crise migratória. Nesse contexto, o Serviço Jesuíta a Migrantes e Refugiados (SJM) alcançou um marco importante na proteção de direitos: graças a uma parceria com a Polícia Federal, impulsiona o processo de emissão de aproximadamente 800 cédulas de identidade por semana para pessoas deslocadas.
A proteção da infância é outro pilar central na região. O Centro Social Francisco Javier de Fé y Alegría atende crianças e jovens entre 06 e 14 anos, oferecendo não apenas um espaço de educação em artes, música e informática, mas também apoio psicológico e ferramentas básicas de higiene e convivência, além de importante apoio alimentar. Da mesma forma, em colaboração com a Cáritas, são mantidas infraestruturas de primeira necessidade, como banheiros públicos e lavanderias comunitárias.
Em uma aposta na autonomia econômica e no futuro de longo prazo das pessoas atendidas, a Fé y Alegría promove, a partir da “Casa Papa Francisco”, capacitações voltadas a mulheres migrantes venezuelanas e a cidadãos brasileiros em situação de maior vulnerabilidade, com formação em empreendedorismo. O processo inclui acompanhamento de quatro meses, com apoio econômico e material para garantir a viabilidade dos projetos.
Para as famílias que buscam se reubicar em outras regiões do Brasil, a Fé y Alegría mantém a casa de passagem “Padre Velaz”, que funciona como um espaço de acolhida temporária, onde recebem preparação em cultura geral e língua portuguesa, com o objetivo de oferecer habilidades úteis para o futuro que desejam construir. Por fim, no centro de interiorização da Polícia Federal, organizações como Fé y Alegría e a Pastoral Universitária acompanham o processo integral do migrante, avaliando perfis profissionais e garantindo acesso à saúde e à educação no destino final.
Nas proximidades de Boa Vista, o trabalho alcança também o coração dos territórios indígenas por meio da missão em Serra da Lua. A partir da comunidade de Novo Paraíso, os padres Pepe Castillo, S.J., e Paco Almenar, S.J., realizam uma imersão completa: acompanham de perto a vida, a liturgia, os sonhos e as lutas de 28 comunidades pertencentes aos povos originários Wapishana e Macuxi.
Por fim, o epicentro operacional e espiritual dessa missão encontra-se na comunidade jesuíta de Boa Vista. Liderada pelo padre David Romero, S.J. (superior da comunidade), pelo padre Pedro Evangelista de Morais, S.J., e pelo diácono Edmo Flores dos Santos, S.J., a missão trabalha em articulação direta com a diocese local. Além de sustentar espaços importantes como o Movimento Eucarístico Juvenil e a Rede Mundial de Oração do Papa, bem como iniciativas de discernimento vocacional e acompanhamento familiar, a comunidade prepara-se para dar um passo decisivo na defesa dos direitos humanos: assumir a liderança de uma nova comissão voltada a enfrentar e acompanhar vítimas do grave flagelo do tráfico de pessoas na região.
Paróquia Santo Inácio em Lethem (Guiana): desafios migratórios e culturais
Ao cruzar a fronteira até a cidade guianense de Lethem, o cenário revela grande complexidade social. Os jesuítas da Paróquia Santo Inácio, os padres Edwin Anthony, S.J., e Cristóvão Primo, S.J., que acompanham a fé das populações wapishana, macuxi e patamona, enfrentam a forte pressão migratória proveniente de Cuba e Venezuela.
Essa dinâmica tem gerado grandes barreiras linguísticas para a educação das crianças, além de um severo processo de desenraizamento e fragmentação cultural entre os jovens, que vivem trajetórias marcadas por desafios sociais complexos. A pastoral paroquial dedica-se ao acompanhamento e à formação de jovens e, para colaborar no enfrentamento dessa realidade, a Companhia de Jesus está impulsionando o programa binacional “Construindo Pontes”, pensado para vincular e fortalecer a juventude de Lethem com a de Bonfim, no Brasil, favorecendo um melhor aproveitamento de recursos e oportunidades.
Fonte: Conferência dos Provinciais Jesuítas da América Latina e do Caribe (Cpal)









