A Igreja Santo Antônio, na Comunidade Indígena Novo Paraíso, em Roraima, foi palco de um momento marcante no dia 03 de janeiro: a celebração dos 50 anos de sacerdócio do padre Francisco Almenar Burriel, SJ, conhecido como padre Paco. A celebração reuniu comunidade, lideranças e convidados em um clima de profunda gratidão, espiritualidade e simplicidade, características que marcam a trajetória do jesuíta ao longo de cinco décadas de ministério.
Mais do que uma data comemorativa, o jubileu sacerdotal foi vivido como ação de graças por uma vida inteiramente dedicada ao serviço do Evangelho, especialmente junto aos povos indígenas, ribeirinhos e comunidades em situação de vulnerabilidade. Em sua homilia e nos momentos de partilha, padre Paco recordou sua caminhada vocacional, marcada pela escuta, pela presença próxima e pela opção preferencial pelos mais vulneráveis.
Durante sua fala, emocionou os presentes ao agradecer às raízes familiares que alimentaram sua vocação. “Primeiro agradeço ao meu pai e à minha mãe, e também à minha tia Maria, irmã do meu pai, que era minha madrinha de batismo. Foram eles que me levaram a conhecer Jesus e a querer respeitar toda pessoa”, afirmou. O testemunho evidencia uma espiritualidade construída no cotidiano, alicerçada na fé simples e no compromisso com a dignidade humana.

Celebrar os 50 anos de sacerdócio em uma comunidade indígena não foi apenas circunstancial, mas profundamente simbólico. A escolha do local expressa o caminho feito pelo jesuíta ao longo de sua vida: caminhar com os pequenos, valorizar culturas, escutar histórias e anunciar o Evangelho a partir do respeito e da inculturação da fé.
Uma vocação marcada pela itinerância e pela missão
Nascido em Valência, na Espanha, padre Paco conheceu a Companhia de Jesus ainda na adolescência. Aos 15 anos, foi impactado por uma palestra de um jovem jesuíta sobre o Brasil, descrito como um “país de contrastes”, marcado tanto por sua riqueza cultural quanto por profundas desigualdades sociais. A experiência despertou nele o desejo de servir em terras brasileiras, decisão que o levou a ingressar na Companhia de Jesus e, aos 20 anos, mudar-se definitivamente para o Brasil, integrando a então Província do Nordeste.
Ordenado sacerdote aos 26 anos, iniciou seu ministério em Recife (Pernambuco), mas logo manifestou o desejo de atuar no interior do País. Foi no sertão do Ceará, na Diocese de Crateús, que viveu uma das experiências mais marcantes de sua vida missionária. Durante 18 anos, atuou junto às Comunidades Eclesiais de Base, partilhando a vida com agricultores, trabalhadores rurais e lideranças populares. Por 15 anos, viveu como padre-agricultor, plantando milho e feijão, integrado às lutas por terra, justiça e dignidade.
Em 1996, foi enviado para a Amazônia, onde passou a atuar em Manaus (Amazonas). Ali, além do acompanhamento de seminaristas, aprofundou sua missão junto a populações ribeirinhas, indígenas e moradores de áreas periféricas. Integrante da Equipe Itinerante, percorreu comunidades por rios e igarapés, permanecendo dias ou semanas em cada localidade, visitando famílias, escutando histórias e celebrando a fé a partir da vida concreta do povo.
Atualmente em missão na Comunidade Novo Paraíso, em Roraima, padre Paco define-se com simplicidade como um “retirante nordestino com sotaque espanhol”. Sua trajetória testemunha uma vida sacerdotal vivida em saída, fiel ao Evangelho e comprometida com a justiça social.

O jubileu celebrado em Novo Paraíso reafirma não apenas a fidelidade de um sacerdote à sua vocação, mas também a presença constante de uma Igreja que caminha com seu povo, aprende com ele e se deixa transformar pelo encontro.


